Tema: Salvador
Por Elisabete Santos Socióloga, Doutorado em Ciências Sociais pela Unicamp e Profa. do Departamento de Administração da Escola de Administração da UFBA

Salvador já nasce metrópole e com os olhos voltados para o mundo, afirmam muitos dos nossos cronistas e teóricos do urbano. Em 1763, quando deixa de ser capital do país, se converte em uma metrópole regional.1 Nesse tempo, seu Centro, seu norte, giravam em torno do seu Recôncavo e da Baía de Todos os Santos. Ao longo dos séculos Salvador tem sido cantada em prosa e verso das mais distintas formas. Rica pobre, dessemelhante, alegre, triste, idílica e pródiga. Salvador é uma cidade negra e também racista, generosa no acolhimento e elitista nas suas relações. Algumas dessas múltiplas representações têm ganhado força e expressão nas últimas décadas: cada vez mais se associa a vida na cidade à pobreza, à degradação ambiental e, nos últimos tempos, à violência urbana. A Cidade da Bahia é a quarta capital do país em população e tem e crescido em um ritmo inferior à média.

Salvador sempre foi considerada uma cidade “sem indústria”. E há quem diga que essa cidade, historicamente, não é o lugar da produção, mas da troca, que busca se inserir no mercado globalizado vendendo atributos que, de resto, hoje, já não os tem – beleza e hospitalidade. Aqui “todo mundo se conhece”. Essa formulação, quando advinda da “classe média” baiana, soteropolitana, àquele nascido em Salvador, é um indicativo de que, afinal, essa é uma cidade na qual poucos são os “remediados”, de extremos – muito rica e muito pobre. Em Salvador, a “classe média” sempre foi exígua e a precariedade e informalidade sempre deram o tom do mercado de trabalho local e regional.

Mas afinal, o que o que torna essa cidade peculiar dentre as capitais brasileiras e porque, às vezes, é difícil compreender a Cidade da Bahia? A peculiaridade de Salvador reside no seu sítio, nos seus atributos ambientais. Salvador é uma península, de topografia acidentada, envolta e entrecortada pelas águas.

Circundada pela Orla da Baía de Todos os Santos e pela Orla Atlântica, a cidade é formada por colinas e vales com cotas que variam de 10 a 110m, com destaque para a "falha de Salvador", que separa as cidades alta e baixa, com desníveis de aproximadamente 80m. A cidade é composta pela sua parte continental e pelas ilhas de Bom Jesus dos Passos, Maré e Frades.

Apesar de sua região avizinhar-se do polígono da seca, conhecido pela baixa pluviosidade e pelos históricos conflitos em torno da escassez de águas, o clima intertropical, favorece a ocorrência de chuvas ao longo de todo o ano. A cidade possui temperaturas relativamente elevadas ao longo do ano, com médias superiores a 22 graus centígrados e índices pluviométricos em torno de 1900 mm anuais, sendo privilegiada pela natureza, pela "fartura" das suas águas.

A posição litorânea oriental assegura ao município uma unidade relativa do ar da ordem de 80% e, como afirma Katia Mattoso, desde os tempos antigos, sol e chuva, aí, nunca faltaram: “Esta é a imensa riqueza da Cidade Alta - há água em toda a parte. Com efeito o solo cristalino do horst2 é impermeável, mas a espessa camada oriunda de sua decomposição é extremamente porosa, servindo de reservatório a águas sempre renovadas nesse clima úmido. (...) É fácil imaginar o enorme reservatório representado pelo solo da Cidade Alta: é só cavar um poço. Basta um afloramento, ao contato com a rocha matriz e com seu solo em decomposição, para ver jorrar uma nascente. Os mananciais e as fontes estão em toda parte em Salvador, na base do horst como nas trilhas de menor fratura, do menor deslocamento de terreno do mais insignificante vale”.3

“Salvador é a cidade de mil fontes”, afirma Mattoso. Localizada à margem da Avenida do Contorno, no bairro da Preguiça a Fonte Pedreira ou da Preguiça, por exemplo, data de 1587. Ainda hoje é muito frequentada, por moradores da vizinhança. “(...) Sítio em que a ecologia natural favoreceu a fixação de colonos, Salvador é verdadeiramente a cidade de todos os Santos, que lhe deram bênção e proteção." 4E essa é uma cidade que tem praias, muitas praias. As da Baía de Todos os Santos, com suas ilhas (Maré, Frades e Bom Jesus dos Passos), e da Orla Atlântica: Boa Viagem, Boca do Rio, Pituba, Ribeira, Amaralina, Armação, Itapuã, Jaguaribe, Ondina, Piatã, São Tomé, Stella Maris, Corsário, Praia do Cristo, Farol da Barra, Farol da Barra, Farol de Itapuã, Flamengo, Jardim de Alá, Porto da Barra, Artistas, Jardim dos Namorados, Pituaçu e o Rio Vermelho, lugar da festa das águas, de Yemanjá – tradição do povo de santo.

ILHA DE BOM JESUS DOS PASSOS

A peculiaridade de Salvador reside ainda no padrão de desenvolvimento implementado na cidade e em sua região, nos contrastes gerados pela concentração de renda e na escala da pobreza e riqueza local e regional. Mesmo quando comparada com outras capitais do Nordeste, a pobreza urbana em Salvador resulta da instituição de um modelo de desenvolvimento que abortou a possibilidade de implementação de uma matriz econômica capaz de gerar diversificar e dinamizar sua uma economia.

Para compreender Salvador é preciso desnaturalizar enredos e representações sobre a sua “vocação natural”, e compreendê-la no conjunto de determinações estruturais, de natureza regional e nacional, que historicamente destinaram à cidade um papel subordinado no processo de acumulação regional e nacional.

Um passeio pela história da cidade revela que, na verdade, a cidade já foi uma cidade com indústria e esse processo “aborta” em função do complexo jogo de interesses das forças econômicas e políticas locais, regionais, nacionais e internacionais. A título de exemplo, a fábrica de Luiz Tarquínio, instalada, em 1891, vendia tecido, do Recife ao Rio Grande do Sul. Foi a indústria têxtil inglesa, a política de preços e as taxas alfandegarias praticadas que desestimularam qualquer iniciativa de industrialização.

O fato é que foram criadas algumas poucas indústrias “nas franjas de uma organização econômica estruturalmente primário-exportadora” e todo esse processo aborta quase misteriosamente, dando lugar a uma vasta literatura que se interroga sobre o futuro do estado e da sua economia.5 Ao contrário de Recife, não chegou a formar ai, exatamente, uma “burguesia industrial” e não se tem ou nunca teve, exatamente, o que poderia ser qualificado como uma “classe operária”, em seu sentido mais clássico. O processo de industrialização mais recente, datado da segunda metade do século XX, situado no seu entorno, encontra-se voltado, sobretudo, para a geração de bens intermediários, sendo suas determinações geradas por uma divisão regional do trabalho duplamente subordinada. É a reprodução na escala local do clássico "enigma baiano", da promessa de desenvolvimento que não se materializa. Substancialmente os processos de constituição dessa matriz econômica, em suas distintas escalas, sempre estiveram marcados pela vinculação a interesses externos e pela demanda de investimentos públicos. É nesse cenário  que se consolida o que muitos qualificam como a vocação “terciaria” de Salvador.

Em terceiro lugar a peculiaridade de Salvador, há quem diga, reside na sua cultura. Essa afirmação está ancorada, sobretudo, na herança africana, no imaginário do homem cordial, na baianidade. Afinal,  a cidade não tem indústria, mas tem belas praias e... um povo hospitaleiro, sedutor, envolto em mito e magia. E tem festa, muita festa. Esse imaginário remonta a um dos traços mais dramáticos da nossa história: a escravidão e o peso das relações escravistas na formação da cidade do Salvador. Mas, afinal, por que às vezes, é difícil compreender a Cidade da Bahia?

SALVADOR E SEUS ENIGMAS

A Cidade da Bahia fez-se metrópole com os olhos voltados para o mar, para a sua Baia de Todos os Santos e para a Europa. Até o ano de 1763 Salvador era capital do país e vivia da economia agro exportadora da Província da Bahia, do excedente gerado pela civilização do açúcar. Exportava fumo, diamante, café, couro, aguardente, cacau, algodão, e exportávamos, sobretudo, açúcar.6 E o açúcar não era apenas um produto, ele criou costumes e hábitos. A universalização do gosto pelo doce advindo da sacarose é uma invenção do século XVII, da corte europeia.7 A dinâmica dessa economia estava subordinada às demandas externas do capitalismo mercantil e industrial em expansão e guardava uma grande dependência em relação ao estado, particularmente no que diz respeito à inovação dos processos produtivos. Nesses tempos a “região” de Salvador era o seu Recôncavo, o seu entorno, banhado pela sua Baia.

Nos anos setenta do século XIX “a Bahia possuía 1010 engenhos movidos a tração animal ou a força hidráulica (...)”. Coziam a “fogo nu”.8 O alto custo de instalação e manutenção dificultava a chegada dos engenhos movidos a vapor d´água na Bahia. Como nota o Barão Sergimirim, os donos de engenho “temiam o sistema de cozinhar a vapor”.9 A “audácia” de Francisco Gonçalves Martins, nascido em 12 de março de 1807, em Santo Amaro, de tentar modernizar o Engenho São Lourenço, levou-o a falência. Em 1871 o governo da província da Bahia, à exemplo do governo imperial, toma para si a responsabilidade e os custos de incorporar a referida inovação à nossa matriz econômica. Com a “fusão” de recursos públicos e privados, em 1880, é construído o Engenho Central do Bom Jardim, em Santo Amaro (em 1877, já tinha sido construído o Engenho Central de Quissamã, na Província do Rio de Janeiro). Em 1892, João Carlos Greenhalgh, entusiasta defensor do destino agrário do Brasil, afirmava que, aqui, os engenhos só sobreviviam com o auxilio do Estado. Como afirma Luiz Henrique Dias Tavares, a “oligarquia baiana, as firmas, companhias ou comerciantes estrangeiros, sempre transferiram para o Estado o ônus dos ´aperfeiçoamentos´”.10

A Província da Bahia exportava produtos primários e importava manufaturados e gastava-se mais com a importação de bens de consumo do que de com maquinas. E, com diz o ditado, “na competição entre o pote de ferro e pote de barro, sabe-se logo qual o pote sairá quebrado...”.11 Vale ainda lembrar um pequeno e importantíssimo detalhe: a nossa economia açucareira não tinha refinaria. Não tinha na colônia e também na metrópole. Durante muito tempo a manufatura final do açúcar ficou na mão dos holandeses. Toda essa engrenagem, financiada pela associação entre capital privado e Estado, movida pelo trabalho escravo e semiescravo, tinha o seu ritmo determinado pelos movimentos de expansão e crise do capitalismo mercantil europeu.

Essa economia entra em declínio e, enquanto a Europa avançava no seu processo de industrialização, impulsionada pela indústria têxtil, em 1809, com a chegada da família real ao Brasil, foi suspensa a proibição de instalação de fabricas no Brasil. A Inglaterra já produzia tecido “fino” para as classes abastadas.13 Na segunda metade do século XIX a Bahia se destaca nesse incipiente processo de industrialização nacional com a instalação de indústrias têxteis no estado. Em 1866 a província de Alagoas tinha uma indústria têxtil, uma em Minas Gerais, duas no Rio de Janeiro e cinco na Bahia, ou seja, mais da metade do parque existente no país.

O ritmo de crescimento demográfico de Salvador nesse tempo é expressivo - Salvador passa de 50.000 habitantes, em 1800, para 129.000, em 1872, e para 144.000, em 1890. É um mercado de produção, de exportação e importação, disputando com o Rio de Janeiro o primeiro lugar como porto, mercado de escravos e praça de comércio e dentre as indústrias criadas na Bahia, destaca-se a Companhia Empório Industrial do Norte, a fábrica de Luiz Tarquínio, instalada em 1891 e localizada na Boa Viagem em Salvador. Luiz Tarquínio era filho de ex-escrava, fora vendedor em loja de tecidos e posteriormente sócio de uma importadora.

A fábrica se conectava com o porto e com a linha ferroviária: “em 1895, dois anos após o inicio do seu funcionamento, ela detinha a terça parte dos operários, quase dois terços dos teares, e, possivelmente, quase a metade da produção dentre suas congêneres fundadas em 1981.”14 Podia não ser o maior parque industrial do mundo, mas, segundo o Engenheiro Dr. Simão da Costa, podia ser equiparado, vantajosamente, aos “mais perfeitos e modernos do além-mar (...)”. O tecido produzido chegava do mercado de Recife ao do Rio Grande do Sul.15 Luiz Tarquínio cria na Cidade Baixa uma vila operaria, sendo considerada, na época, como uma grande inovação na relação entre capital e trabalho. 

Salvador e a Bahia, progressivamente, perdem importância como centro industrial nas décadas seguintes: “contando com quase a metade das fabricas existentes em 1875, em 1890, essa proporção se reduz a nona parte”.16 Os preços dos produtos exportados, as taxas alfandegarias praticadas e as vantagens competitivas da indústria têxtil inglesa desestimulavam qualquer iniciativa de industrialização, chegando a ameaçar o artesanato no pais.17

Mas há quem diga que “a cidade da Bahia, ela mesma, nunca chegou a produzir coisíssima alguma. Nem um garrafão de cachaça para consumo próprio.”18 Mas aqui, sim, podia-se fazer fortuna, ainda que não se fosse proprietário de escravo, gado ou de engenho. Vende-se e compra-se de um tudo. E mesmo para comprar escravo, gado e financiar a produção, precisava-se de dinheiro e é aí que entravam os “donos da prata”, emprestando dinheiro e cobrando juros. Salvador era, assim, considerada, sobretudo, como um entreposto comercial. Era e continua sendo, afirmam muitos.  Entretanto, o que dava mesmo prestigio e poder na Cidade da Bahia era a terra. Reproduzia-se, aí, a estrutura da casa grande e senzala, fruto de um peculiar encontro de civilizações abaixo dos trópicos. Homens e mulheres portugueses, negros, escravos e libertos, mestiços, índios e migrantes das mais distintas paragens, fizeram uma cidade, através de praticas profundamente violentas, marcadamente crivada pelas cores.19

Durante a primeira metade do século XX, Salvador foi, no pais, a capital a acusar as mais baixas taxas de crescimento populacional, pois, então, a industrialização brasileira começava a ganhar vulto e a população dos vastos sertões e do Recôncavo passava a emigrar para o Centro e o Sul do Brasil. Parte da cidade vivia, então, de algumas poucas atividades ligadas ao setor capitalista "uma gota d'água no oceano" enquanto o resto da cidade de "expedientes" alimentados pelo excedente concentrado nas mãos da oligarquia baiana.20

É exatamente na segunda metade do século XIX e virada do século XX que as diferenças regionais ganham expressão e se consolidam. Com a decadência da civilização do açúcar e com um incipiente parque industrial, a Cidade da Bahia transforma-se em um território de importância secundaria e subordinada em relação ao polo de desenvolvimento capitalista que se consolida e se expande no Sudeste do pais. Mais uma vez as promessas de industrialização não chegam a se concretizar efetivamente.

OS ANOS CINQUENTA E A DESCOBERTA DO OURO NEGRO

Nos anos cinquenta, no contexto da constituição do capitalismo monopolista e com o já acentuado processo de expansão capitalista no Centro Sul, a cidade do Salvador dá as costas para a sua baia e se volta para o seu Norte. Esse processo tem inicio com a implantação da Petrobrás, cuja atividade diversa à "matriz técnica e social baiana", no Recôncavo, gera novos fluxos e relações, conformando um novo espaço econômico. O estado, no contexto do nacional desenvolvimentismo, assumia a responsabilidade de suprir uma debilidade da matriz energética brasileira, quer seja, a falta do petróleo. "Durante três décadas o Recôncavo baiano será o único produtor nacional de petróleo, chegando a produzir um quarto das necessidades nacionais".21

O volume de investimentos da Petrobrás não encontra precedentes na região e chega a corresponder, entre 1955 e 1959, respectivamente, a 8,1% e 66,9% da renda interna industrial do Estado. "Toda essa massa monetária, de investimentos e salários, concentrada num espaço reduzido, praticamente no Recôncavo e em Salvador, transformará a economia baiana radicalmente. A dinâmica dessa radicalidade concentrará a renda em Salvador quase como em nenhuma outra parte do Brasil.”22 Entretanto, essa atividade pouco se desdobra no conjunto da economia local, constituindo o que alguns autores qualificam como “enclave na nossa paisagem”.23

A exemplo do que acontece com muitas capitais no país entre 1940 e 1970 a RMS se desruralizou, reduziu-se drasticamente a população ocupada na agricultura, enquanto o emprego industrial cresceu em ritmo inusitado. A população economicamente ativa vinculada à agricultura reduziu acentuadamente e, na década de 1970, o emprego industrial e as atividades terciárias crescem em ritmo inusitado. Este processo de industrialização se consolida com a implantação do Centro Industrial de Aratu (CIA), em 1966, e do Complexo Petroquímico de Camaçari-Copec, em 1972, estando este último localizado a 5 km da sede do município de Camaçari e a 55 km de Salvador.

Tal parque industrial é "um complexo de produção integrado - de petroquímicos básicos, intermediários e finais - comportando ainda indústrias químicas, metalúrgicas, de celulose, químico-têxteis entre outras.”24 Suas indústrias estruturam-se em função dos insumos básicos fornecidos pela Petrobrás, particularmente pela Refinaria Landulpho Alves (RELAN), e pelo COPEC, que no final da década de oitenta respondia por 40% da produção nacional de petroquímicos. Os três complexos em operação colocavam o país entre os dez maiores produtores petroquímicos mundiais.

Vale registrar que a instalação deste parque industrial na RMS resultou de modificação na composição do parque setorial brasileiro, quando os segmentos produtores de bens intermediários, mais poluidores e intensivos na utilização de recursos naturais, passaram a ter participação relativamente crescente. Este fato é explicado pela transferência para os países subdesenvolvidos da produção de eletro intensivos, que exporta e relocaliza riscos técnicos e poluição. Essa mesma lógica reproduziu-se internamente, reservando às regiões "periféricas" as indústrias mais poluidoras - o que marca a verdadeira dimensão do seu impacto poluidor, do comprometimento dos recursos ambientais, "das águas outrora doces".25 Como anteriormente ressaltado, o referido parque industrial se localiza em municípios do entrono de Salvador.

Nesse tempo, trabalhava-se no Polo Petroquímico, em Camaçari, mas morava-se Salvador. O trabalhador do Polo, o “poleiro”, gastava o seu salário, comprava casa, usava o serviço médico, fazia compras em Salvador. Durante muito tempo Salvador foi qualificada como uma “cidade dormitório”. Porém, a injeção de capitais realizada nessa região ampliou o leque de serviços vinculados à produção, dinamizou o comércio, incrementou a construção civil e agitou o mercado imobiliário na cidade. Enfim, esse surto de “desenvolvimento”, intensificou os processos migratórios de alta e baixa renda, dando corpo a novas formas de urbanização e urbanidade. “Fala-se agora, aliás, não mais na Cidade da Bahia, mas de um lugar onde ninguém mora – a Região Metropolitana de Salvador”. E, definitivamente, um disparate culinário: o acarajé, além do camarão e do vatapá, agora tem salada.26

Mas são poucos, muitos poucos os que conseguem emprego nas modernas, hoje não mais tão modernas, indústrias do complexo industrial metropolitano. Salvador continua a ser qualificada como uma cidade do comércio e dos serviços, com parcela considerável da sua população situada nas menores faixas de renda e trabalhando no setor público, em atividades domesticas e em atividades “informais”, no gigante invisível, como afirma Fernando Pedrão. 

SALVADOR DOS DIAS DE HOJE

No começo do século XXI Salvador se constitui em um dinâmico espaço de articulação de uma região urbano-industrial que apresenta claros sinais de envelhecimento. Sua estrutura social, que superpõe classe, etnia e raça, tornou-se mais complexa e estratificada, renovando-se os quadros das suas elites, ampliando-se as camadas médias assalariadas, constituindo-se uma classe de trabalhadores assalariados e informais que imprimem sua marca ao mercado de trabalho local e regional.

Atualmente, a região metropolitana de Salvador (RMS) possui treze municípios tendo a capital um grande destaque do ponto de vista populacional – em 2010 o município concentra 75% da população da RMS e tem uma densidade bruta de 8.801,21 habitantes por k². A Cidade da Bahia possui, em 2019, uma população estimada de 2.872.347 (o censo de 2010 registra uma população de 2.675.656), sendo tendo crescido a uma taxa média anual de 0,91%, inferior à média nacional (de 1,17%), sendo sua taxa de urbanização de 99,97%. (IBGE, 2019)

O município vem perdendo participação na região, o que se deve à diminuição de processos migratórios e à redução da taxa crescimento de Salvador que, na década de 2000-2010, foi de 0,9 (maior do que a do estado da Bahia, de 0,7 e inferior a do pais que é de 1,0). (IBGE, 2010) Salvador não foge à regra da transição demográfica em curso no país - tem-se menos filhos, as famílias estão menores e a população está ficando mais velha.


Fonte: IBGE - Censo Demográfico/Contagem População
Elaboração: Sistema de Informação Municipal-SIM/PMS.

Continua expressivo o peso de Salvador e de sua região no conjunto do estado da Bahia. Da condição de capital do país à capital do estado, Salvador preserva a sua condição de metrópole, de polo econômico e centro comercial e de prestação de serviços. A cidade reafirma sua condição de centro financeiro e político-administrativo e continua a desenvolver uma economia fundada, sobretudo, em atividades terciárias, por um lado, com um sofisticado comércio e moderno setor prestador de serviço e, por outro, por um conjunto de atividades pouco produtivas e de baixa remuneração. Neste contexto, o capital imobiliário, a indústria do turismo e do entretenimento, a festa, têm um importante papel na economia soteropolitana. São várias cidades em uma mesma cidade. Seus subúrbios, a Orla da Baia de Todos os Santos e o Miolo (seu centro geográfico), áreas que apresentam as maiores densidades demográficas da cidade, são ocupados, sobretudo, pela população situada nas menores faixas de renda e a cidade antiga, de urbanização consolidada e a Orla Atlântica, são o local de moradia das camadas médias e altas.

Definitivamente, Salvador volta-se para o seu Norte. Os incentivos fiscais voltados à diversificação do parque industrial localizado no entorno metropolitano, particularmente com a instalação de complexo automotivo, ampliam e consolidam o processo de urbanização dos municípios de Lauro de Freitas, Simões Filho e Camaçari, consolidando mais um vetor de expansão regional.

Salvador possui, em 2016, um PIB de 61.102.372,82, o que se traduz em uma participação de 52.5% no PIB da sua região metropolitana (de 116.309.729) e de 23,6% no PIB estadual (de 258.649.000,00 milhões), um PIB per capta de 20.796,62, o maior do estado da Bahia e o nono dentre as capitais brasileiras.


Fonte: IBGE
Elaboração: Autor


Fonte: IBGE
Elaboração: Autor

Esses números se materializam em diversos aspectos na economia local e regional. A cidade “sem indústria” e em tempos de desindustrialização tem uma estrutura ocupacional na qual predominam as ocupações relacionadas ao comércio de mercadorias, aos serviços pessoais e públicos, nos setores da educação e saúde, em atividades vinculadas à construção civil e imobiliária, ao alojamento e a alimentação – sagrada e profana. São empregadores e dirigentes de nível de formação superior, trabalhadores com formação média, prestadores de serviços especializados e incontáveis trabalhadores com precária formação profissional, baixa especialização e remuneração e sem vinco de trabalho formal – o chamado informal, o gigante invisível, que povoa as ruas da cidade do Salvador.

Nesse conjunto, destaca-se a participação do estado como empregador e das atividades qualificadas como domésticas – em Salvador ainda expressivo. Essa estrutura ocupacional, profundamente marcada por determinações de raça, etnia e gênero, conforma um mercado de trabalho estratificado onde convivem ocupações especializadas, com altos níveis de remuneração e ocupações precárias, de baixa qualificação e rendimento. Seus principais polos de concentração de emprego são o Centro Tradicional (as cidades alta e baixa – o Comércio, Av. Sete, Nazaré, Canela, Barra, Graça e Rio Vermelho), a área do Iguatemi, Pituba e Itaigara (a cidade nova), além de vários sub-centros em bairros como Brotas, Cabula, Liberdade, São Caetano, Cajazeiras, Paripe, Periperi, Pau da Lima, Boca do rio e Itapuã e tantos outros bairros e nomes que tornam essa cidade tão diversa e complexa. Sua forma piramidal condiciona seu processo de ocupação e direciona fluxos – muitos dos trabalhadores que diariamente circulam em Salvador têm como seu local de moradia municípios circunvizinhos do entorno metropolitano, onde ainda pode ser um pouco mais facial ter acesso à terra urbana.

Salvador e sua região apresentam ainda um rendimento médio real da sua população ocupada e assalariada no trabalho principal de 1.476 reais, enquanto no Distrito Federal o rendimento médio é de 2.892 e em São Paulo de 2.044. (DIEESE, 2018) Salvador e sua região, a exemplo do que acontece em muitas outras capitais, experimenta, historicamente, processos de concentração de investimentos em segmentos muitos específicos da sua econômica e do seu território. Essa situação convive com a intensificação da precarização do trabalho, o que reforça e amplia as situações de desigualdades no conjunto da cidade.

No atual cenário de recessão, Salvador, reiteradamente, ocupa uma posição desfavorável em relação à redução do contingente de assalariados no setor privado e o número de assalariados com carteira de trabalho. É preciso registrar ainda o significado da herança escravista na configuração da estrutura ocupacional e de renda em Salvador.  Dados recentes da PNAD Continua indicam, de forma clara, o modo como estão estratificados os trabalhares quando se leva em conta o recorte de etnia e de raça, ou seja, são os trabalhadores negros que engrossam a fila do desemprego, que recebem os menores rendimentos e enfrentam as piores condições de trabalho.


Fonte: IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, primeiro trimestre de 2017 e primeiro trimestre de 2018.
Tabulações especiais efetuadas por Inaiá Carvalho.
*Os dados relativos à desocupação e renda se referem ao primeiro trimestre de 2018. Os demais ao primeiro trimestre de 2017.

A pobreza urbana em Salvador se explicita na sua configuração sócio espacial no mapa, a seguir apresentado, no qual os bairros considerados como de ocupação “espontânea”, situados na “periferia” e onde mora a população parda e preta, que apresentam os menores rendimentos médios.

Renda Média por bairro em Salvador


Fonte: IBGE 2010.
Elaboração: Grupo de Pesquisa Qualis-Salvador, 2016.

Salvador adentra o século XXI com as maiores taxas de desemprego aberto dentre capitais e regiões metropolitanas brasileiras. Comparativamente, em 2018, enquanto Salvador e sua Região Metropolitana apresentavam uma taxa de desemprego total (aberto e oculto) de 25,7 (Figura 1), o Distrito Federal apresentava uma taxa de 18,6 e São Paulo 16,6. (DIEESE, 2018) Essa taxa de desemprego é maior entre jovens e mulheres negras, moradoras da periferia urbana.

Referências

CARVALHO, Inaiá Maria Moreira. Capital imobiliário e desenvolvimento urbano. Caderno do CRH. Salvador, v. 26, n. 69, p. 545-562, 2013.

HARVEY, David. Cidades Rebeldes: do direito à cidade à revolução urbana. São Paulo:
Martins Fontes, 2014.

OLIVEIRA, Francisco. O Elo Perdido: classe e identidade de classe na Bahia. São Paulo,
Brasiliense, 1987.

PREFEITURA MUNICIPAL DE SALVADOR (PMS). Programa Salvador 360. Disponível em: http://360.salvador.ba.gov.br/wp-
content/uploads/2017/06/Apresentac%CC%A7a%CC%83o_Salvador-Nego%CC%81cios-v.16-v.final_.pdf_30_ac%CC%A7o%CC%83es.pdf Acesso em 01/10/2019.

PEREIRA, Gilberto Corso, PEREIRA, Maria das Graças Gondim dos Santos. Expansão
Urbana e Metropolitana de Salvador, in (Org.) SILVA, Sylvio Bandeira de, CARVALHO,
Inaiá Maria Moreira, PEREIRA, Gilberto Corso. Transformações metropolitanas no
século XXI: Bahia Brasil e América Latina. Salvador EDUFBA, 2016.

CARVALHO, Inaiá Maria Moreira, Desigualdades Raciais no Espaço Urbano, (mimeo),
2019.

RISÉRIO, Antônio. Uma História da Cidade da Bahia. Rio de Janeiro. Versal Editores, 2004.

SAMPAIO, José Luís Pomponet. A Evolução de uma Empresa no Contexto da
Industrialização Brasileira: A Companhia Empório Industrial do Norte 1891-1913.
Dissertação de Mestrado da Faculdade de Ciências Humanas da UFBA. Salvador, BA. UFBA, 1975.

SCHWARCZ Lilia M. e STARLING, Heloisa M. Brasil: uma biografia. São Paulo.
Companhia das Letras. 2015.

TAVARES, Luiz Henrique Dias. “A Economia da Província da Bahia na segunda metade do
século XIX”. Universitas, (29): 31-34, janeiro-abril, 1982).

Notas Gerais

1 PEREIRA, PEREIRA, 2016.

2 Horst – bloco de território elevado que constitui e conforma as cidades alta e baixa em Salvador. MATTOSO, 1992:46

3 MATTOSO, 1992:46.

4 MATTOSO, 1992:46.

5 RISÉRIO, 2004. p. 464.

6 TAVARES, 1982.

7 SCHWARCZ e STARLING, 2015, p.50.

8 TAVARES, 1982, p. 34.

9 TAVARES, 1982, p. 34.

10 TAVARES, 1982, p. 34.

11 TAVARES, 1982, p. 35.

12 SCHWARCZ e STARLING, 2015, p.74.

13 SAMPAIO, 1975, p.15.

14 SAMPAIO, 1975, p. 80.

15 SAMPAIO, 1975, p. 106

16 SAMPAIO, 1975, p. 28.

17 SAMPAIO, 1975, p.44.

18 RISÉRIO, 2004, p. 237.

19 SCHWARCZ e STARLING, 2015, p.15.

20 OLIVEIRA, 1987, p.43.

21 OLIVEIRA, 1987, p.43.

22 OLIVEIRA, 1987, p.43.

23 RISÉRIO, 2004, p. 538.

24 FRANCO, 1993, p.77

25 FRANCO, 1993, p.84

26 RISÉRIO, 2004, p. 545.

Link para as Imagens usadas
https://www.google.com/search?q=foto+aerea+de+salvador

https://www.google.com/search?q=foto+aerea+antiga++de+salvador

https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/conheca-as-dez-praias-mais-bonitas-da-baia-de-todos-os-santos/

 

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